terça-feira, 4 de outubro de 2011

O OUTRO LADO DA MOEDA

OO
Jovens, de 12 a 21 anos, jogando bem, seja nos profissionais ou nas divisões de base, é quase sempre a mesma história: vendido ainda novo e uma enxurrada de críticas por parte da imprensa, dos torcedores e da opinião pública sobre o próprio jogador e principalmente sobre clubes e empresários.
O pensamento da maioria segue o caminho mais fácil e defendido pela mídia. Apedrejar agentes e clubes que deixam “futuros craques” irem embora cedo é bem simples. Poucas pessoas tentam fazer uma reflexão e pensar no lado destes que normalmente são crucificados. Muito menos, se põe no lugar destas pessoas, já que se fizessem isso, com certeza, teriam atitude semelhante a tomada por eles na maioria das vezes.
Ao contrário do que a imprensa gosta de noticiar, nem todos os jovens que são vendidos cedo são negócios ruins para ambas as partes. Na verdade, na maioria dos casos, a negociação normalmente é benéfica para todos os lados, mas quando isso ocorre, parece que a mídia "esquece" de noticiar esta parte, ou será que é difícil assumir um erro?
 Vale lembrar que jogador de futebol vive fases boas e ruins como qualquer atleta, e uma proposta que vem em uma fase boa pode ser única, assim como esta fase do jogador. Além disso, a carreira é curta, e na maioria dos casos esses meninos vão ter quinze anos de trabalho que devem juntar dinheiro para uma vida toda. Como não se deixar seduzir pelas altas quantias nessa situação?
Somada a questão da fase e da carreira rápida, ainda há a pressão familiar, pois, em muitos casos, o salário de um jovem jogador não é só o seu sustento para a vida toda, mas também o de seus pais, irmãos ou de mais quem faça parte da família. A pressão é muito alta nesses meninos e nem sempre eles correspondem ou conseguem lidar com ela. Será que se decidirem não sair de seu clube e se não vingarem no futebol, o clube vai ficar ao lado do jogador em qualquer situação? Dará suporte ao jovem e sua família mesmo caso ele não de o lucro que o clube quer?
Há alguns meses se instalou uma discussão no futebol brasileiro se Paulo Henrique Ganso deveria ou não sair do Brasil. Todos foram contra, insinuaram que o jogador estaria agindo por dinheiro (como se estivesse errado por isso) e que deveria ficar no Santos. Após a decisão de esperar para sair do clube paulista, o jovem sofreu com algumas lesões e ainda não conseguiu voltar ao nível em que esteve no momento de sua possível negociação. E agora? Caso Ganso não consiga mais jogar o que futebol de antes, será que ele acertou em não aproveitar a chance? A imprensa que o castigou irá ajudá-lo?
Outro exemplo como o de Ganso é do ex-jogador Pedrinho, que jogou no Vasco e no Palmeiras. Apesar de não estar tão envolvido em negociações como o jogador do Santos, Pedrinho era apontado como um futuro craque. Com 21 anos e ídolo do Vasco, teve sua primeira convocação para a seleção. Dois dias antes de se apresentar, sofreu uma grave lesão e nunca mais teve o mesmo futebol. 
Depois da lesão rodou por alguns clubes, mas infelizmente não atingiu o nível que se esperava dele antes da lesão. O caso de Pedrinho é só mais um dos inúmeros exemplos que carreira de jogador de futebol muda do dia para a noite, e nem sempre é possível ficar esperando melhores propostas.
Guilherme, Dudu Cearense, Rafael Sóbis, Daniel Carvalho e Keirrisson são alguns jogadores que saíram jovens do Brasil como futuros grandes jogadores, voltaram, e estão disputando atualmente o Campeonato Brasileiro. No caso desses 5 jogadores citados, todos quando saíram do Brasil e foram críticados assim como seus clubes e empresários. E ainda analisando os 5, nenhum se tornou a promssa que se esperava em cima deles.
Dudu Cearense, por exemplo, teve sua primeira convocação para seleção principal aos 20 anos em 2003. Após se transferir para o Japão foi muito criticado, apesar de ainda ser convocado até o ano de 2007. O jogador rodou muitos países e voltou ao Brasil em 2011, mas com um futebol muito abaixo do esperado, sendo reserva do Atlético-MG que está na zona de rebaixamento do atual Brasileirão. Quando o jogador se transferiu, a imprensa na época falou que era muito novo para sair do Brasil e que o clube e o atleta estavam errados na negociação. E agora? Jogador e clube receberam boa quantia de dinheiro, a qual com certeza não receberiam se Dudu não tivesse saído em 2004 do Vitória.
O caso mais recente desse erro de julgamento aconteceu em 2010. Quando o Vasco vendeu o jovem Phillipe Coutinho, ainda das divisões de base e apontado como uma das maiores promessas do clube, por 10 milhões de reais, a imprensa crucificou a diretoria do Vasco por deixar o menino ir embora.
 Mais de um ano após a venda do jogador, que ainda nos juniores era chamado de gênio, ficou comprovado que, pelo menos por enquanto, Phillipe não rendeu o esperado ao clube que o contratou. O jovem ainda não se firmou e suas atuações são bem abaixo do que a expectativa em cima dele. No mundial Sub-20 deste ano, ele foi a maior decepção da seleção brasileira. Um ano depois de sair do Brasil a única certeza é que hoje Coutinho não vale os 10 milhões de reais que foi pago no passado com a esperança que se tornasse craque.
A mídia brasileira tem que parar de escolher o caminho fácil em suas coberturas. Criticar é mais fácil que apurar e analisar os fatos. Falar que está errado é simples, mas não há retratação e ninguém assume o erro das besteiras ditas. Em vez disso, a imprensa não aprende, continua agindo da mesma forma e molda torcedores de futebol que não raciocinam, só ouvem a opinião dos jornalistas e tomam como verdade suas “ análises” absolutas e sempre (sic) certeiras.

Um comentário:

  1. Boa escolha do tema, saindo do comum, e bons argumentos!

    O problema que mais enfrentamos é o da generalização. Cada caso é um caso, sem exceções, e a mídia tende a formar verdades absolutas. Como, por exemplo, "jogador sair novo do Brasil é terrivel, desperdício de carreira". Muitas vezes os clubes são mais gerenciados e os jogadores mal instruídos e realmente acontece uma negociação pífia. No Brasil isso é muito comum pela necessidade dos clubes de fazerem dinheiro rápido, de gerarem receita a curto prazo.

    Os exemplos que você colocou são pontuais e exemplificam bem. A carreira é curta, o dinheiro que parece "infinito" para nós, não é. Com o padrão de vida levado e o curto tempo de atividade, ele se esvai. Cansamos de ver ex-jogadores quebrados, precisando de dinheiro e topando qualquer coisa. Enfim, é pra se pensar né? Um cara que sai da periferia de São Paulo, do sertão da Bahia ou de uma favela no Rio de Janeiro tem condições de "se segurar" no Brasil.

    As coisas estão mudando pouco a pouco, nossa economia está bem, os clubes estão pagando mais e está começando a ser bom negócio ficar, senão jogadores como o Neymar, Damião e Lucas não estariam mais pra contar história. De qualquer forma, jogar na Europa é jogar na Europa. O sonho de qualquer menino, independente da condição financeira, do quanto se paga no Brasil. Depois, mais maduros, eles voltam, sentem saudades daqui, da torcida, etc, mas antes precisam "cumprir um plano de carreira", e é isso que muito jornalista não entende.

    Não vou me estender muito mais, até porque concordo com praticamente tudo que voce falou, cara. Parabéns pelo bom texto, Marcud!

    Um abs,

    Beto Passeri

    ResponderExcluir