Sair do jogo e ligar o rádio. Nas vitórias, a voz de Luiz Mendes trazia a magia da extensão do momento do gol. Nas derrotas, a palavra fácil acariciava o coração e parecia entender a dor que só um amante do futebol sente. Assim, com meus singelos 19 anos, posso descrever alguém que durante 71 anos encantou, compreendeu e deu voz ao sentimento de milhões de brasileiros na TV e, principalmente no rádio.
O comentarista da palavra fácil, como era conhecido, nasceu em 1922 e sua vida se mistura com a da televisão e rádio brasileiros, principalmente no âmbito esportivo. Hoje, não só o Brasil, mas o mundo perdeu uma pessoa que viu e fez a história.
Há um ou dois meses, lendo alguns livros sobre os maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, pensei em como seria ter presenciado os lançamentos de Zizinho com a camisa do Flamengo, as arrancadas de Ademir em São Januário, os passes de Romeu nas Laranjeiras e os dribles de Garrincha.
Perguntei-me se estas crônicas retratavam a realidade, como teria sido ir ao estádio ver esses mestres, dúvidas, que eu e quem gosta de futebol nunca poderemos satisfazer. Um vazio existente para sempre em quem ama esse esporte. Questões que Luiz Mendes poderia responder com simplicidade, não por simplesmente ter visto esses gênios, mas por ter construído o futebol brasileiro ao lado deles.
Em 71 anos a serviço da Comunicação não houve um entrave na voz. Nunca gaguejou. As palavras saiam como se por vontades próprias, estruturadas, de fácil entendimento para burgueses ou operários, suaves nos ouvidos de todos. O patriotismo nacional, a história do país, a popularidade do futebol no mundo, tudo isso merece um capítulo especial com seu nome.
Vindo do Sul, com apenas 20 anos era locutor da rádio globo já no dia de sua fundação em 1944 e até hoje ainda brindava com sua presença a emissora que ajudou a transformar em uma das maiores do país.
No jornalismo esportivo acompanhou 16 Copas do Mundo. Em 1950, narrou o gol de Gighia com 9 entonações diferentes até acreditar que estava levando para o país um dos momentos mais tristes de seus 450 anos até então. Em 1954 foi o único locutor brasileiro a transmitir a Copa e, em 58, obteve seu momento de maior felicidade na profissão, levando na voz, da Suécia ao Brasil, a nossa primeira conquista mundial.O título de 1958 foi o momento mais marcante de sua brilhante carreira segundo ele, um adepto do lema que a primeira vez a gente nunca esquece.
Copas, jogos, conquistas e gols. Luis Mendes captou como ninguém a simplicidade e fidalguia de uma bola estufando na rede. Em 1963, criou o que foi a primeira e melhor mesa redonda da história da imprensa brasileira. No programa Fácit, gênios defendiam seus clubes com a paixão do torcedor que ia aos domingos ao Maracanã.
Trabalhando como âncora, ao lado de Luís estavam nomes como Nélson Rodrigues, defensor do Fluminense, João Maria Scassa, fanático pelo Flamengo, João Saldanha, fervoroso torcedor do Botafogo, Ademir Menezes, maior ídolo da história do Vasco e Armando Nogueira que tentava representar a imparcialidade. O programa, que é considerado o melhor de jornalismo esportivo já feito, foi idealizado por esse mito da nossa imprensa.
Durante essas mais de 7 décadas no rádio, ele narrou, comentou, emocionou e, mais que isso, fez história. A história dele, a história do futebol, a história do Brasil e a história de todos que ouviram em sua voz as palavras certas durante uma vida dedicada a comunicação.
Com um singelo Minha gente, Luiz Mendes entrou na vida de milhares de brasileiros durante muitos anos. Hoje, infelizmente, nada consegue descrever sua perda e o que ela significa. Talvez, só um comentarista com a palavra fácil conseguisse achar os termos certos para exprimir a dor que toma conta do jornalismo hoje. Só Luis Mendes, com sua genialidade e serenidade, seria capaz desta missão.
![]() |
| 9/06/1924-27/10/2011 |


Ao ler este belíssimo texto, emocionei-me e quase fui as lágrimas.
ResponderExcluirApesar de não conhecê-lo pessoalmente, me julgava íntimo,por escutá-lo todos os dias nas saídas dos jogos. .
Nem sempre concordava com o que ele falava, principalmente quando falava que o Vasco tinha jogado mau e eu como torcedor apaixonado tinha assistido o Vasco dar um show, mas mesmo discordando respeitava a sua opinião.
Ótimo texto e uma bela homenagem. Mesmo eu, que nunca fui fã de escutar comentários e resenhas no folclórico radinho de pilha, e por isso, não me considero muito credenciado pra falar de Luis Mendes, me emocionei. Parabéns!
ResponderExcluirPerfeito texto.
ResponderExcluirLuiz Mendes, o gênio da palavra fácil...
Vai deixar saudades.
Belo texto, realmente tocante!
ResponderExcluirGrande Luis Mendes, vai deixar saudade!!